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terça-feira, 29 de março de 2011

Desalinhados

Munch - "O grito"


"Os jovens estão mais aptos a inventar que a julgar; mais aptos a executar que a aconselhar; mais aptos a tomar a iniciativa que a gerir" - (Francis Bacon)

A geração da meia idade actual de pais educaram os seus filhos , em nome de uma protecção desvirtuada, recheada de caprichos , cuja abundância de teres os tornou obstinados e sobretudo insatisfeitos, com um desejo desmedido, nada saudável, porque não se prepararam nunca para perder...

Esta geração de filhos que não foram orientados para saber lidar com frustrações, essas mesmas que têm feito parte parte do percurso da vida humana desde o passado, intrínsecas aliás, à sua evolução , cuja memória dos vindouros rapidamente esqueceu, porque o bem-estar obviamente marca o cérebro com sinais positivos, decorrentes das endorfinas responsáveis pela satisfação, que rapidamente se instalam e se tornam viciantes. Foram as últimas descendências privilegiados na infância e na adolescência, que cresceram sem que lhes pedissem grandes sacrifícios.

Na verdade tudo passou a ser descartável: os estragos substituíam-se facilmente por coisas novas, porque a sociedade o instituiu.A juventude assimilou-o, incutindo hábitos de desperdício em tudo . A ideia de obter veio a substituir a de conseguir alcançar através do ganho merecido.

Hoje o mundo mudou. Tal como já havia mudado já muitas vezes na cronologia do mundo: a períodos de abastança, seguem-se os de carência, é quase cíclico,a História prova-o.Aqui e agora estamos a sofrer uma crise económica que se repercute de imediato na vida social. Sofre-se! O fácil tornou-se difícil!

Só os valores ligados à prática quotidiana, para além da moral e de qualquer religião específica, mas aqueles adquiridos pragmaticamente, em função da sobrevivência no seio da comunidade e em prol do bem comum, poderão servir de escudo a esta geração ansiosa e revoltada, receosa da dureza que se evidencia, com fracas competências para lidar com o "pouco", habituada a mordomias provenientes duma abastança fugaz, mas apetitosa.

É preciso reaprender a lidar com o malogro, ultrapassar barreiras com humildade ( não com humilhação), ser criativo e saber fazer, antes do saber estar.

"O que se aprende na juventude dura a vida inteira" -(Francisco Quevedo)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Dissimulação


quebrandocadeiasdomedo
As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras

A decepção não deverá intimidar-nos!
Porém, é com elas que convivemos na nossa vida, em cada esquina do nosso quotidiano.
O desapontamento vai-nos transformando em seres amargos, à medida que o tempo corre, tornando o nosso coração fibroso, cujas cicatrizes testemunham desilusões acumuladas.
O sorriso vai perdendo o brilho alvo, decorrente da naturalidade com que deixávamos escapar o esgar de comprazidos, quando sentíamos júbilo, acreditando no que fazíamos, com devoção.
Na hora de ser traído, todos nós iniciamos o processo de inversão: duvidamos, hesitamos, desacreditamos..
.E a vida deixa de ser impostora, adquirem-se então os mecanismos de defesa, cria-se o postiço.
Vestimos uma nova pele, escondemos o nosso "eu" sob um manto diáfano, mas resistente, tanto quanto somos capazes, seguimos na nossa jornada, disfarçados de "outro", porque renegámos toda a acção que nos afigure aleivosa.
Todo ano trajamos de Carnaval!
Talvez na data profana ancestral desta efeméride possamos enfim, por um dia, vestir de Natural.Aos olhos dos outros, andaremos por certo mascarados.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Natividade

WWW.mandalas, CH

Tempo de Natal!

Nascemos portadores do nosso futuro. O lastro do instinto para a iluminação reside na latência daquilo a que se chama de alma, que se alimenta do que aprende, sem contudo se desligar da essência, da aptidão, cujo potencial qualitativo aportará num acervo de competências capazes de transmitirmos aos que de nós germinaram.

As nossas rotinas misturam-se com os nossos sonhos. É por isso que nunca encontramos a nossa paz interior. Por vezes a doença, ou o desgosto, ao abrirem as portas da nossa fragilidade, também nos abrem para a humanidade, percebendo as subtilezas do universo.

As nossas energias andam aprisionadas nas memórias inconscientes que trazemos connosco, há quem as classifique de herança "cármica", marcada nos genes, que, somente com a maturação da vida se expande, se liberta das cargas sociais impostas e torna os nossos actos criativos, numa união equilibrada do racional com o emocional, deixando agir a nossa “alma”.

Quando derradeiramente renegamos o sucesso materialista para nos reconciliarmos com o nosso verdadeiro ser, aquele que percebe a condição humana. Então decantámos as nossas vivências e purificamos a nossa existência com uma maior harmonia, escutando o som do Universo. Finalmente somos…

Mandala?Ou aspiração à Paz....

É Natal!

sábado, 30 de outubro de 2010

a noite mágica

Luar google

“O pensamento é o pensamento do pensamento. Luminosidade tranquila. A alma, de certa maneira, é tudo o que é: a alma é a forma das formas. Súbita tranquilidade, vasta, incandescente: forma das formas”. James Joyce

A "festa dos mortos" celebrava o " céu e a terra" , para os celtas, sendo o lugar dos mortos um lugar de felicidade pura, onde não haveria fome nem dor. A celebração realizava-se há mais de 2000 mil anos, com rituais presididos pelos sacerdotes druidas, que actuavam como "médiuns" estabelecendo a conexão entre os vivos e os seus antepassados falecidos. Dizia-se também que os espíritos dos mortos voltavam nessa data para visitar seus antigos lares, sendo guiados pelos seus familiares, através das fogueiras. O catolicismo adoptou esta festa em honra dos defuntos, cuja expressão se encontra traduzida nos enfeites dos cemitérios, floridos e iluminados, perpetuando a elevação da alma, em comunhão com os parentes terrenos, numa memória una, que se crê imortal.

Nada de condenável este rito, solenizando a morte, enquanto perda e reencontro, porque se deseja, como sempre se aspirou, aliás, à eternidade, à ligação do que passou, com o que perdura e se vaticina ainda. O misterioso, o oculto e a fragilidade do ser humano, que racionaliza, mas não encontra soluções para o desconhecido, porque a partida deste mundo é insólita e inverosímil.

Dá-se a diáspora pelas teorias da clarificação, espremendo-lhes a clarividência possível, porém inacabada utopia, porque não passou ainda de um teorema, alimentado por especulações, adoçado por ilusões, cultos secretos, esperança de que o mundo dos vivos se propague no dos mortos, como uma continuidade anímica, que dá sentido à existência.

É a hora de homenagear os antepassados. Façamos a vigília, com máscara, travessura, magia e doçura

domingo, 26 de setembro de 2010

Contra - muros...

Marlene Dumas



O que faz alguns homens e mulheres serem recordados, é apenas a sua marca de inconformados com o politicamente correcto, que a sociedade estipulou como norma, porque os que ocupam nela lugares cimeiros, estabeleceram padrões segundo os seus valores, para que tudo o resto que não se encaixasse neles. Ostracizando, será mais fácil a uma minoria reinar. Melhor, dominar, deixando fluir a tendência humana para a repressão sobre tudo o que poderá apresentar-se como obstáculo na competição pela busca da felicidade. Será sempre assim? Tem sido sempre ao longo da História da humanidade, desde a conquista da sobrevivência na pradaria, em bandos primitivos, refinado à medida que a sociedade se tornava institucionalizada.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A essência e a aparência

Salvador Dali

Não vivemos num mundo de verdades. A fogueira das vaidades alimenta a chama do fingimento, que, por sua vez nutre as mentes, em função da convencionado como socialmente correcto, ou, porque simplesmente não resistimos ao prazer do disfarce.

O baton encobre os lábios secos, o blush dá tonalidade à face, para ocultar umas rugas ainda susceptíveis de algum disfarce, o brilho dos tecidos ofusca o olhar dos que observam os que desfilam nos locais bem frequentados, a gravata empresta um ar respeitável ao homem que necessita ser aceite no mundo do trabalho, ou dos ambientes de glamour…

De uma maneira ou de outra todos inventamos. Fantasiamos…

A necessidade de encobrir, alterar, aparentar dá vida à segunda personagem que habita um pouco em todos nós. Se é um alter-ego, explicado pela ciência psicológica, que com maior ou menor intensidade se desenvolve connosco, ou, se é antes uma necessidade social que adquirimos, uns muito, outros pouco, através da educação, consoante o meio em que crescemos, pois será discutível, numa base académica, ou mesmo tema para uma investigação mais apurada.

Em algum momento da nossa existência metamorfoseamos… Efeito Pigmaleão!

A realidade é que o recurso ao disfarce é de facto tão ancestral quanto a humanidade, quando o homem das cavernas usava disfarces, obtido de artefactos, ou peles de animais, para rituais porventura de base mágica, apesar de poderem ter servido a sobrevivência, pela caça.

A simulação é quase um desafio, como um jogo a um só jogador de duas faces. E aplica-se em quase tudo, desde a maquilhagem, pela caracterização, à escrita, pelo recurso aos heterónimos e pseudónimos, à produção de imagem e som, na magia do cinema, personalizado pelos actores, ao mundo da Web, nas salas de chat, ou no second live.

Os subterfúgios têm sido o encanto que nos dá asas para voar, libertação do real, refúgio da dor, o mito cresce com os nossos sonhos, preenche-nos a mente, inebria o lado obscuro da dureza que a vida nos impõe, mas que a luz da fantasia nos empresta.

Quando já não existir outro “eu” em nós, simplesmente morremos.


quinta-feira, 6 de maio de 2010

BB Brasil 2010



"Há aqueles que lutam um dia; e por isso são bons;

Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;

Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;

Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis."

Bertold Brecht

Lutar significa gostar da vida. Luta-se porque se acredita, mas também se luta por sobrevivência. Todos temos o instinto da luta. Lutamos quase sempre pelos que amamos, ou por nós mesmos, porque preservamos o nosso eu.

Quem desiste de lutar e se entrega somente ao acaso, vulgarmente traduzido por destino, ou deixou de crer, ou entrega o espírito á aventura, porque esmoreceu as emoções, ou ainda porque as do desafio do perigo eminente se sobrepõe, como uma compulsão á linguagem dos afectos.

O mundo constrói-se da luta diária dos seres humanos, enquanto estes vivem para um objectivo, como se não houvesse amanhã… Os limites surgem numa qualquer hora em que, porque se olha o espelho e se vê um espectro, ou porque se perde uma razão de existir. Aí, percebe-se finalmente que há um fim à vista. Deixa-se então de se sentir imprescindível.

Restam os memoriais da obra feita.




quarta-feira, 28 de abril de 2010

Salvador Dali


"Dizem que tudo o que buscamos, também nos busca e mesmo se ficarmos quietos, o
que buscamos nos encontrará. É algo que leva muito tempo esperando por nós.
Enquanto não chega, nada faças. Descansa. Verás o que acontece enquanto isso
.”

Clarissa Pinkola

Será que existe destino? Ou ele é produto do nosso percurso?

Por vezes acreditamos que a sorte ou o azar que nos marcam, resultam duma profecia anunciada que nasceu connosco, escrita nas coordenadas astrológicas que a posição dos corpos celestes nos determinou.

Mas a verdade é que as nossas decisões também nos prescrevem o futuro, condicionam-nos o trajecto da vida, invertem os nossos anseios, somente porque fomos nós que escolhemos o atalho, convictos que seríamos o mais apropriado para seguir caminho.

A natureza humana é impaciente, não se resigna simplesmente apenas o quotidiano,ela planeia, sonha, sofre por antecipação. Seria bem mais pacífica a existência, se cada um de nós, simplesmente se limitasse a existir.

E então veríamos o que aconteceria enquanto isso… Talvez o que buscamos nos encontrasse, talvez porque não teimássemos em procurar…

E o tempo passaria mais de vagar,a exigência diminuía e viveríamos um dia de cada vez!

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Escola na república in Google imagens

“ Para ter ideias claras sobre o futuro do nosso País é fundamental tê-las sobre o seu passado." (Carvalho Homem)

A transmissão dos legados patrimoniais, relativos aos valores ideológicos e culturais do passado, representa uma herança segura deixada aos jovens, ensinando-os a conhecer, cuidar e preservar das marcas deixadas pelos seus progenitores, construindo um memorial colectivo, para dar significado à vida.

A palavra ‘memória’ remete - nos necessariamente a outra, o ‘passado’. A memória é algo que se distingue do presente, mas que, ao mesmo tempo, faz parte dele. Por isso, tal como a memória, também o passado é entendido, sob o prisma do pensamento ocidental, num âmbito temporal distinto do presente.

É preciso não esquecer que a memória dos jovens está recheada por representações e noções sobre o passado, adquiridas nos contactos sociais. Os factores afectivos têm um peso decisivo nessas memórias colectivas e são até fonte de muitas interpretações unilaterais dos factos históricos, sendo que, por vezes, muitas delas são construídas a partir muitos esquecimentos. O próprio passado é visto em função do presente dependente das expectativas do futuro.

Consequentemente, o ensino da História deve contribuir para edificar uma memória fundada na informação crítica e plural, que inclua quadros de referência, para se continuar a perpetuar o passado, em função da reflexão sobre o mundo actual. Daí que a consciência histórica deva revestir um carácter humanistas, partindo das realidades próximas, locais, nacionais e europeias, com as quais nos identificamos, para a compreensão das afinidades e diversidade humana cultural, cuja memória colectiva seja entendida como uma representação do passado compartilhado, promovendo e definindo as identidades de grupo. Nos últimos tempos tem-se desenvolvido, ao nível social, uma crescente preocupação pela preservação do nosso património cultura, na a tentativa de colmatar as necessidades e deficiências locais neste campo, estando-se a converter já numa orientação política para os autarcas.

É pois neste contexto, que a escola se inscreve como adjuvante na pesquisa da herança cultural e ensino dos valores patrimoniais, incentivando à preservação e promovendo a formação cívica, mas forjando sempre o espírito crítico.É fundamental avivar lembranças dos que ainda as guardam, escutadas dos seus pais e avós, como testemunhos vivos do passado, estendendo os seus depoimentos às novas gerações, que erguerão o memorial concelhio, em estreita colaboração com o lugar de aprendizagem por excelência, que são as escolas cheias de jovens em formação Deve dar-se primazia à articulação da aprendizagem global, formativa e cívica, no sentido da correlação entre novos ”aprendizes” e os “velhos” guardadores de memórias, em forma de trocas intergeracionais. `

"Só protegemos o que amamos, só amamos o que conhecemos"

(Lema da OPA )

domingo, 28 de março de 2010

Res Publica


"Há muito poucas repúblicas no mundo, e mesmo assim elas devem a liberdade aos seus rochedos ou ao mar que as defende. Os homens só raramente são os dignos de se governar a si mesmos"(Voltaire)


Portugal comemora 100 anos de republicanismo. Viva a república!
Polémico ainda neste velho continente europeu o melhor tipo de poder.Talvez haja um estigma que nunca largou os povos que aderiram à república, em convívio político paralelo aos que permaneceram monárquicos.
A monarquia não passa de um clássico símbolo,resultante da evolução tribal, reunida em volta do seu chefe, reconhecido elemento unificador, para a defesa da casta.Por norma, alguém fisicamente capaz, de cariz forte, destemido, transmissor de segurança. Depois,esse ceptro acabou por ser perpetuado no seio familiar, em transmissão directa.
Mas a questão põe-se: é garante a mesma qualidade de liderança nas futuras gerações? E aí todos teriam de se resignar com o rei de direito próprio, mesmo que fosse impróprio para consumo? Ainda que constitucional, a monarquia delegava na figura real a chancela do seu povo, porém, este teria de se submeter a esse conformismo.Mesmo com muitos defeitos, um presidente é escolhido, de um entre os seus pares, em teoria legislada.
Depois, claro, surgem as imperfeições, desvirtuando os preceitos dos princípios que nortearam essa soberania. Mas também se está bem a tempo de os modificar, já que é dos erros que se evolui, melhorando o que não é funcional.
E note-se que a soberania do povo delega o poder em quem elege, não há súbditos! Mas que há um certo romantismo na figura real, há, no imaginário colectivo dos contos ancestrais de príncipes e princesas .
Talvez seja essa a nostalgia que ainda nos arrasta a asa para essa vertente do poder de sangue azul, não obstante a racionalidade que preside ao livre escrutínio duma república.
Dela restou um ideário:

"... encararemos o republicanismo como uma doutrina sociopolítica de raíz humanista, que inseriu a defesa dos direitos individuais num horizonte de sociabilidade cívica." (Catroga)




segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Clientela….

www7.rio.rj.gov.br


“Há duas maneiras de um homem a alcançar. Uma é pela cultura e outra é pela corrupção.”

Oscar Wilder

A clientela, na história romana, foi um grupo originário da plebe que, para sobreviver, se colocava a serviço de um patrício, que passaria a ser o seu patrono, recebendo deles assistência jurídica e terras para cultivo. Por sua vez, os clientes tornavam-se fiéis aos patrícios e votavam segundo a sua indicação.

Versão actualizada destes clientes encontram-se os compadrios, que através de promessas e trocas de favores, igualmente sobrevivem, melhor, vivem excelentemente, ao serviço dos seus padrinhos , cujo folar é recebido em conluios.

O oportunismo instalou-se como regra dos iluminados, que em terra de cegos usaram o olho que tinham, como meio de espiar conveniências e, através de manipulações, arrecadam o produto do saque, ainda que praticado de modo discreto, com aparência de cordato, em prol do bem público, sob um pretenso trabalho difícil, sem horário, pleno de responsabilidades, virtuoso…

A única virtude dos oportunistas é a sua capacidade de sobrevivência.

Para ser eficiente, o oportunista apresenta destreza e características que lhe permitam influenciar pessoas em resultado do seu proveito próprio, de modo lesto, com um desempenho capaz.

Se tivermos em conta que o verbo corromper significa tornar pútrido, podre, facilmente poderemos perceber, que a corrupção social significa o uso ilícito do poder, com a pretensão de transferir renda pública ou privada, de forma amoral, para grupos de indivíduos, inter- ligados por laços de interesse partilhado.

O suborno emana da natureza humana, tem história, o Judas que vendeu Cristo, o Viriato atraiçoado por Sertório… só mesmo a educação da consciência é capaz de controlar o ímpeto da perversão.

As democracias geram também abusos de poder, o sistema teórico sustentável, porém com uma prática subvertida, porque os intermediários do sistema criam teias de circulação, cujo percurso só é disponibilizado aos bem aventurados, que se regem pela avidez da riqueza, da fama, através da postergação dos outros, os mal amados, ainda que tidos como protectores sociais do bem comum.

A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse”. Eça de Queiroz

domingo, 7 de fevereiro de 2010

photobucket.com/albums/b159/panotea/Santa.




A história é a vida das colectividades; a novela é a vida dos indivíduos

(Alphonse Daudet )

São os protagonistas da História da Humanidade, nasceram, viveram e morreram sem nunca terem sido valorizados, porque apenas se limitaram a ser.

Dos fracos não reza a História, diz o velho aforismo popular, que tal como toda a sapiência empírica enferma do mal das adulterações de entendimento, regidas apenas pelo que é visível, não pelo que se dá no âmago da acção. Daí que os heróis passaram sempre a ser os personagens que edificaram os valores da vida, à velha maneira dos clássicos, em bom exemplo e incentivo para os demais, ainda que arrastassem também consigo os vícios privados atrás das públicas virtudes. Já posteriormente se procura apenas realçar os heroísmos, em corpos tão sãos, sem máculas espirituais, como se fossem pequenos Deuses, concebidos no seio das religiões monoteístas, puros, sem pecado, determinados, poderosos, capazes, dotados de um dom.

A História foi estudada em função dos” Grandes “, daqueles que se distinguiram pelos actos aplaudidos pelas civilizações ocidentais, ou analisada pelo contraste dos que se evidenciaram pelas acções consideradas vis, de extermínio, ou simplesmente de domínio. E ecoam para sempre Alexandre Grande, Carlos magno, George Washington, Nelson Mandela, ou, Nero, Carlos V, Hitler, Pinochet….

Revisitando o poeta Augusto Gil, numa simetria verbal…” Os Anónimos Senhor, porque lhes dais tanta dor, porque padecem assim…?”, sem memória colectiva, realçada pelas virtudes, ou pelo sofrimento, cedendo sempre a sua vez aos ilustres, que constam dos Anais, insigne pelo feito relevante, ainda que não auferindo a mesma presunção de aplauso, por unanimidade, mas sim pela ascendência que determinam.

Eles nasceram e cresceram nos seus meios, por vezes hostis, lutaram pela sua sobrevivência, mas também despiram a pele do “egoísmo” e vestiram a capa da filantropia, salvaram gente, construíram terras, inventaram remédios, curaram moribundos, sofreram abusos, explorados, mas também foram coniventes no ultraje alheio, choraram, riram, adoeceram, fizeram exames de consciência, arrependeram-se, ou não, mirraram, percepcionaram a fraqueza humana, souberam que nunca seriam eternos…morreram. Pouco são lembrados…são os anónimos, edificaram a História , “E cada homem é um livro onde o próprio Deus escreve” (Victor Hugo)



terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Solitário....Solidário....



in usuarios.lycos.es/waldemar/solitario.jpg

“Oh morte, tu que és tão forte,
Que matas o gato, o rato e o homem.
Vista-se com a tua mais bela roupa
quando vieres me buscar
Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
E eu continuarei neste homem” …

(“Canto para minha morte” de Raul Seixas e Paulo Coelho)

O ser humano é um ser sectário e por isso, tende a viver isolado. Socializa-se porque se apercebe da sua impotência, face `a natureza, que se lhe sobrepõe. Daí, que movido pelo seu instinto de sobrevivência, busca ajuda nos outros seus semelhantes. Deste modo, torna-se sociável, pela via egocêntrica, que lhe está implícita, fugindo dos seus medos, ocultando a sua fraqueza, enquanto ser.

O progresso afinal, não é mais do que o resultado de uma certa forma de vida dual humana, que implica sofrimento: a solidão e a colectividade. Ambas provocaram o engenho humano. E essa inovação criativa é resultante da vida social, pela superação dos medos e dos desafios, como produto da capacidade humana de resolver problemas associando-se a outros semelhantes, para se fortalecer face às realidades mais fortes, só vencidas por uma acção conjunta.
A nossa individualidade interrelaciona- se com outras individualidades, manifestando-se esse resultado numa vida social, a nossa subjectividade interage assim, com outras subjectividades, levando o ser humano a ser solidário, ainda que não pela benevolência, mas pela necessidade, agindo em troca de benefícios, interesseira, é certo, porém ela caracteriza a acção humana.

“Faz ao outro para que o outro retribua!”

“Meu aqui é o lá deles. Meu agora não se sobrepõe completamente ao deles. Meus objectivos diferem dos deles e podem mesmo entrar em conflito”. (BERGER)

domingo, 6 de dezembro de 2009

Arquivo neural

Salvador Dali



“A memória é o espelho onde observamos os ausentes.”

Joubert

A memória passa através dos factos como um álbum. Por vezes, porém, paramos numa folha e é como se toda a vida se fixasse aí, mas quando menos se espera, está-se de novo parado noutra e projectado para trás, quase como se revivesse o evento outra vez.

A memória é intuitiva, mas a recordação é sempre reflectida, mesmo com lacunas, ainda que haja uma tendência para preenchê-las com pedaços de criatividade, pelo que, recordar pode até ser uma arte. Por isso, não é fácil a arte de recordar, visto que a recordação, no momento em que é revelada pelo acto de pensar, pode alterar-se, enquanto a memória se limita a pairar entre a lembrança nítida e a lembrança distorcida

.Como é a saudade, que se gera simplesmente pelo facto de se estar ausente de algo, ou alguém agradável para os sentidos e emoções. Na saudade vem, de um modo incisivo à recordação, algo que está presente na memória recente, mas que lentamente se vai "fantasmagorizando" e então, resta viver uma ilusão, onde o crepúsculo é duradouro, e não se faz dia….

Mas é mais difícil afastar a má recordação em benefício da boa memória, por esta estar condicionada por uma memória negativa, de pesadelo insistente, que corrói a alma e detrói o corpo, pode até matar!

É por isso que a memória é como o ventre da alma, em que a alegria e a tristeza são o seu alimento, doce ou amargo.

Os escritos e as imagens deixadas são património do silêncio e a memória é um arquivo que aguarda uma provação da paciência. Hibernam, por assim dizer, nalgum circuito da memória e um dia enchem-se de nitidez, como se acabassem de ser iluminados, ainda que nem sempre fiéis à realidade vivida, mas provocando um renascimento intenso, ainda que criativo.

É do alento das recordações agradáveis, que os velhos alimentam os seus dias, conseguindo a proeza de seleccionar os componentes doces para preencherem as horas silenciosas, que compõe o resto das suas vidas, que perderam a efusividade da juventude. É por essas memórias aprazíveis que choram, não pelos traumas vividos, porque escolheram esquecê-los, ao apagá-los da lembrança, por não terem mais esperança…


quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Apocalipse

pastorvaldemirsarmento.wordpress.com

Os mortos renasceram.

Os vivos morreram.

O sol apagou-se.

As estrelas romperam-se.

O céu incendiou-se.

O universo contraiu-se.

E foi o dia do juízo final…

A eternidade deu.se!

E fez-se nada.

Até sempre….

Um novo ser.

Um ser de novo.


quarta-feira, 8 de julho de 2009

Estrela cadente




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As estrelas nascem, brilham e morrem….

Mas a fama tem um preço:

Despertam iras e rancores, que se erguem da poeira que envolve a sociedade sedenta de inveja.

Enquanto a magnificência resplandecente perdura, através de um corpo pujante, atendo as chamas do seu potencial criativo, a vida é bela!

A magnitude do endeusamento à escala planetária desmesura o ser adorado, convertendo-o a pouco e pouco num perdulário despersonalizado.

Exige-se cada vez mais luz!!!!

Observa-se o recurso a uma forma de mimetismo, em consonância com a reclamação colectiva.

A estrela transfigura-se, perde a identidade. Cria um fetiche ofuscando o seu “eu” pela ilusória versão do sucesso efémero.

Como se não existisse amanhã!

Um dia o sol apaga-se. Salda-se a dívida contraída com o corpo.

Restam as memórias reluzentes duma criação...

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Verdade ou consequência...

                                                                     in google imagens

“Verdade ou consequência”?

Era um jogo da minha adolescência.

Em grupos de rapazes e raparigas,

Todos se batiam à segunda sorte da partida…

Pois na verdade, mentia-se.

Na consequência, fingia-se...

Jogo de imitação da vida:

Ora se perde, ora se ganha.

Ou se consegue, ou se falha.

No dia-a-dia real, 

E o  que se  faz afinal,

senão, encenar e arriscar?

Teima-se em função da sobrevivência.

Desfia-se a própria consciência,

em prol da necessidade,

de um amor, de uma doença….

Jogar à verdade pela falsidade!

À consequência, pela verdade!

Verdade ou consequência?

Será antes uma subtileza,

Uma forma de lidar com a dor,

Ou um mecanismo de defesa…

Não há verdades absolutas,  

há antes axiomas  ocultos.

Vende-se ilusões, compra-se ambições

Contorna-se o real,  em prol do  receptor.

Se ele é humilde escuta-se sem atenção,

Se é altivo condena–se sem perdão!

Afinal, quem legislou a "bíblia” das condutas morais?

Deus?

Então, ele não era infinitamente bom?

Ou terei ouvido mal na religião?

Teria sido ideia dos homens?

E, eles não tinham sido expulsos do paraíso?

Ou terá sido um mito do demónio pagão?

-“Perdoai-lhes Senhor, eles não sabem o que fazem!…”

Ainda ecoam estas palavras no monte Sinai.

A paz é podre, levanta. uma suspeição

Na parada, a traição vai sempre à frente.

É assim que se geram as guerras,

Só poderá haver um dia, tréguas,

quando o igual for igual ao seu igual. 

Aí, haverá mútua compreensão.

Porque:

Amar, é evitar pedir perdão!!!