domingo, 28 de fevereiro de 2010

in ilo tempore...Coimbra

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"O passado, o presente e o futuro não são mais do que um momento na perspectiva de Deus, a perspectiva na qual deveríamos tentar viver. O tempo e o espaço, a sucessão e a extensão, são meras condições acidentais do pensamento. A imaginação pode transcendê-las, e mais, numa esfera livre de existências ideais. "Oscar Wilde
A praça da cidade universitária, que centenariamente evoca a república portuguesa, amontoam-se memórias dos que passaram pela velha academia, cujos espíritos foram moldados pelas tertúlias, paródias e desafios de uma mocidade aberta à novidade, destemida, ávida de mudança...
Numa cidade - canção, eternizada no fado saudoso da juventude perdida, subsistem agora as lembranças, ofuscadas pela renovação da actualidade, diferente, cujos valores e interesses alteraram de certa forma a paisagem humana que a povoa no presente, apesar deste não distar tanto assim do tempo da recordação, mas menos convulsiva na forma de contestar, porque os ideais são outros.
Permanece o espaço que assiste à renovação das gentes que o frequenta, nas esplanadas recria-se a a narrativa colectiva.Hoje restam as consciências na penumbra das árvores frondosa, que ensombram os dias de outrora, porque já não voltam, são fantasmas que recordam os dias risonhos das gerações que por ali deixaram as suas almas e edificaram a história.
Aprenderam a vida!
"A educação é uma coisa admirável, mas é bom recordar que nada do que vale a pena saber pode ser ensinado" Oscar Wilde

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Clientela….

www7.rio.rj.gov.br


“Há duas maneiras de um homem a alcançar. Uma é pela cultura e outra é pela corrupção.”

Oscar Wilder

A clientela, na história romana, foi um grupo originário da plebe que, para sobreviver, se colocava a serviço de um patrício, que passaria a ser o seu patrono, recebendo deles assistência jurídica e terras para cultivo. Por sua vez, os clientes tornavam-se fiéis aos patrícios e votavam segundo a sua indicação.

Versão actualizada destes clientes encontram-se os compadrios, que através de promessas e trocas de favores, igualmente sobrevivem, melhor, vivem excelentemente, ao serviço dos seus padrinhos , cujo folar é recebido em conluios.

O oportunismo instalou-se como regra dos iluminados, que em terra de cegos usaram o olho que tinham, como meio de espiar conveniências e, através de manipulações, arrecadam o produto do saque, ainda que praticado de modo discreto, com aparência de cordato, em prol do bem público, sob um pretenso trabalho difícil, sem horário, pleno de responsabilidades, virtuoso…

A única virtude dos oportunistas é a sua capacidade de sobrevivência.

Para ser eficiente, o oportunista apresenta destreza e características que lhe permitam influenciar pessoas em resultado do seu proveito próprio, de modo lesto, com um desempenho capaz.

Se tivermos em conta que o verbo corromper significa tornar pútrido, podre, facilmente poderemos perceber, que a corrupção social significa o uso ilícito do poder, com a pretensão de transferir renda pública ou privada, de forma amoral, para grupos de indivíduos, inter- ligados por laços de interesse partilhado.

O suborno emana da natureza humana, tem história, o Judas que vendeu Cristo, o Viriato atraiçoado por Sertório… só mesmo a educação da consciência é capaz de controlar o ímpeto da perversão.

As democracias geram também abusos de poder, o sistema teórico sustentável, porém com uma prática subvertida, porque os intermediários do sistema criam teias de circulação, cujo percurso só é disponibilizado aos bem aventurados, que se regem pela avidez da riqueza, da fama, através da postergação dos outros, os mal amados, ainda que tidos como protectores sociais do bem comum.

A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse”. Eça de Queiroz

domingo, 7 de fevereiro de 2010

photobucket.com/albums/b159/panotea/Santa.




A história é a vida das colectividades; a novela é a vida dos indivíduos

(Alphonse Daudet )

São os protagonistas da História da Humanidade, nasceram, viveram e morreram sem nunca terem sido valorizados, porque apenas se limitaram a ser.

Dos fracos não reza a História, diz o velho aforismo popular, que tal como toda a sapiência empírica enferma do mal das adulterações de entendimento, regidas apenas pelo que é visível, não pelo que se dá no âmago da acção. Daí que os heróis passaram sempre a ser os personagens que edificaram os valores da vida, à velha maneira dos clássicos, em bom exemplo e incentivo para os demais, ainda que arrastassem também consigo os vícios privados atrás das públicas virtudes. Já posteriormente se procura apenas realçar os heroísmos, em corpos tão sãos, sem máculas espirituais, como se fossem pequenos Deuses, concebidos no seio das religiões monoteístas, puros, sem pecado, determinados, poderosos, capazes, dotados de um dom.

A História foi estudada em função dos” Grandes “, daqueles que se distinguiram pelos actos aplaudidos pelas civilizações ocidentais, ou analisada pelo contraste dos que se evidenciaram pelas acções consideradas vis, de extermínio, ou simplesmente de domínio. E ecoam para sempre Alexandre Grande, Carlos magno, George Washington, Nelson Mandela, ou, Nero, Carlos V, Hitler, Pinochet….

Revisitando o poeta Augusto Gil, numa simetria verbal…” Os Anónimos Senhor, porque lhes dais tanta dor, porque padecem assim…?”, sem memória colectiva, realçada pelas virtudes, ou pelo sofrimento, cedendo sempre a sua vez aos ilustres, que constam dos Anais, insigne pelo feito relevante, ainda que não auferindo a mesma presunção de aplauso, por unanimidade, mas sim pela ascendência que determinam.

Eles nasceram e cresceram nos seus meios, por vezes hostis, lutaram pela sua sobrevivência, mas também despiram a pele do “egoísmo” e vestiram a capa da filantropia, salvaram gente, construíram terras, inventaram remédios, curaram moribundos, sofreram abusos, explorados, mas também foram coniventes no ultraje alheio, choraram, riram, adoeceram, fizeram exames de consciência, arrependeram-se, ou não, mirraram, percepcionaram a fraqueza humana, souberam que nunca seriam eternos…morreram. Pouco são lembrados…são os anónimos, edificaram a História , “E cada homem é um livro onde o próprio Deus escreve” (Victor Hugo)



domingo, 24 de janeiro de 2010

vazio...


Vladimir Moldavski

Se de noite chorares pelo sol, não verás as estrelas

Tagore , Rabindranat

Solidão,

Noite branca,

Mar da China,

Beco escuro de Agadir,

Floresta densa da Amazónia,

Imensidão do nada,

Incerteza do devir,

Intensas noites de insónia.

Concerto sinfónico,

Requiem sibilante,

Recordação dolorosa,

Inferno de Dante,

Amor para dar,

Receio de amar…

Luta tortuosa.

Meg

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Solitário....Solidário....



in usuarios.lycos.es/waldemar/solitario.jpg

“Oh morte, tu que és tão forte,
Que matas o gato, o rato e o homem.
Vista-se com a tua mais bela roupa
quando vieres me buscar
Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
E eu continuarei neste homem” …

(“Canto para minha morte” de Raul Seixas e Paulo Coelho)

O ser humano é um ser sectário e por isso, tende a viver isolado. Socializa-se porque se apercebe da sua impotência, face `a natureza, que se lhe sobrepõe. Daí, que movido pelo seu instinto de sobrevivência, busca ajuda nos outros seus semelhantes. Deste modo, torna-se sociável, pela via egocêntrica, que lhe está implícita, fugindo dos seus medos, ocultando a sua fraqueza, enquanto ser.

O progresso afinal, não é mais do que o resultado de uma certa forma de vida dual humana, que implica sofrimento: a solidão e a colectividade. Ambas provocaram o engenho humano. E essa inovação criativa é resultante da vida social, pela superação dos medos e dos desafios, como produto da capacidade humana de resolver problemas associando-se a outros semelhantes, para se fortalecer face às realidades mais fortes, só vencidas por uma acção conjunta.
A nossa individualidade interrelaciona- se com outras individualidades, manifestando-se esse resultado numa vida social, a nossa subjectividade interage assim, com outras subjectividades, levando o ser humano a ser solidário, ainda que não pela benevolência, mas pela necessidade, agindo em troca de benefícios, interesseira, é certo, porém ela caracteriza a acção humana.

“Faz ao outro para que o outro retribua!”

“Meu aqui é o lá deles. Meu agora não se sobrepõe completamente ao deles. Meus objectivos diferem dos deles e podem mesmo entrar em conflito”. (BERGER)

domingo, 20 de dezembro de 2009

O brilho e o baço....


A consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência. Há inteligências inconscientes - brilhos do espírito, correntes do entendimento, mistérios e filosofias - que têm o mesmo automatismo que os reflexos corpóreos, que a gestão que o fígado e os rins fazem de suas secreções

Fernando Pessoa

Brilham as luzes por todo o lado da cidade. Tremeluzem, como se o mundo fosse a representação de um céu estrelado, mas com pinturas coloridas, substituindo o ténue amarelado real das noites límpidas, quando observamos a via láctea.

As montras comerciais exibem convites natalícios à compra de bens, úteis, mas quase sempre inúteis, porque o prazer de dar viciou as mentes dos homens e das mulheres, que transmitem o ritual aos seus rebentos, que já sofrem desde crianças desta adição. E sem possibilidade de se vislumbrar grande desintoxicação, a menos que seja pela abstinência forçada, nada fácil de suportar, deixando sempre marcas, porque gera revoltas interiores, proporcionando distorções da personalidade.

O Natal é uma operação de marketing. Vende. Cria dependência. Dá lucro. Desenvolve o consumo. Sem presentes materiais não há Natal.

O espírito natalício, esse será um complemento, um meio que justificará o fim a que se destinam os artefactos luminosos, inebriando os seres que alimentam as suas ganas compulsivas de oferecer, porque é Natal.

Natal vem da ideia vocabular de nascimento, é para o mundo ocidental uma memória simbólica do surgimento de Cristo, como revolucionário ideológico, porque influenciou milhões de mentalidades, em torno de uma religião que se instituiu, ainda que desse profeta tenha somente retido as parábolas, mas não o desapego aos bens de riqueza ou de ostentação.

Hoje recorda-se o Cristo pobre, simples, de missão altruísta e tolerante, mas pratica-se a construção de riqueza, o espavento, o egoísmo e a incompreensão. No meio destes antagonismos encontramos certamente o Natal.

Veste-se o fato de Jesus, ao som de melodias angélicas, cria-se o ambiente divinal, juntam-se os cenários mágicos e eis que trocam presentes, extasiam-se meninos, alimentam-se prazeres, respeitam-se protocolos, angariam-se clientes, deliciam-se estômagos com iguarias, praticam-se umas acções solidárias, e…. Cumpre-se a tradição!

O nosso tempo é um tempo de aquisição material. Perdeu-se a fé, porque ela já não satisfaz os espíritos de hoje, no mundo das evidências. Mas ainda há uma réstia de magia ancestral, que se sobrepõe, mesmo aos mais cépticos, herdada dos nossos antepassados das cavernas, que também iluminavam os seus desejos, através da cor brilhante iluminado pelo fogo, expressos nos desenhos rupestres, afinal presentes desejados, por uma caça bem sucedida, com o mesmo sentido da ânsia de sorte que nos leva a receber também em festa profética, o Ano-Novo, incluído nas festas natalícias.


domingo, 6 de dezembro de 2009

Arquivo neural

Salvador Dali



“A memória é o espelho onde observamos os ausentes.”

Joubert

A memória passa através dos factos como um álbum. Por vezes, porém, paramos numa folha e é como se toda a vida se fixasse aí, mas quando menos se espera, está-se de novo parado noutra e projectado para trás, quase como se revivesse o evento outra vez.

A memória é intuitiva, mas a recordação é sempre reflectida, mesmo com lacunas, ainda que haja uma tendência para preenchê-las com pedaços de criatividade, pelo que, recordar pode até ser uma arte. Por isso, não é fácil a arte de recordar, visto que a recordação, no momento em que é revelada pelo acto de pensar, pode alterar-se, enquanto a memória se limita a pairar entre a lembrança nítida e a lembrança distorcida

.Como é a saudade, que se gera simplesmente pelo facto de se estar ausente de algo, ou alguém agradável para os sentidos e emoções. Na saudade vem, de um modo incisivo à recordação, algo que está presente na memória recente, mas que lentamente se vai "fantasmagorizando" e então, resta viver uma ilusão, onde o crepúsculo é duradouro, e não se faz dia….

Mas é mais difícil afastar a má recordação em benefício da boa memória, por esta estar condicionada por uma memória negativa, de pesadelo insistente, que corrói a alma e detrói o corpo, pode até matar!

É por isso que a memória é como o ventre da alma, em que a alegria e a tristeza são o seu alimento, doce ou amargo.

Os escritos e as imagens deixadas são património do silêncio e a memória é um arquivo que aguarda uma provação da paciência. Hibernam, por assim dizer, nalgum circuito da memória e um dia enchem-se de nitidez, como se acabassem de ser iluminados, ainda que nem sempre fiéis à realidade vivida, mas provocando um renascimento intenso, ainda que criativo.

É do alento das recordações agradáveis, que os velhos alimentam os seus dias, conseguindo a proeza de seleccionar os componentes doces para preencherem as horas silenciosas, que compõe o resto das suas vidas, que perderam a efusividade da juventude. É por essas memórias aprazíveis que choram, não pelos traumas vividos, porque escolheram esquecê-los, ao apagá-los da lembrança, por não terem mais esperança…