quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Sum ergo cogito et dubito…

Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre suportar na mente as flechadas da trágica fortuna, ou tomar armas contra um mar de obstáculos e, enfrentando-os, vencer?

William Shakespeare

Somos o que construímos, mas não escapamos à herança dos genes que nos criaram.

Constituímo – nos num punhado de ideias edificadas a partir da educação, da experiência e da aptidão inata para sermos alguém individualizado. Sentimos, mas também intuímos. Misto de bichos e de humanos, amamos e odiamos, por vezes com a mesma força com que devoramos, quando temos fome.

A melhor barreira que nos separa dos outros seres vivos é que trazemos connosco o dom da dúvida, face à vida. Questionamos tudo, reflectimos, hesitamos, decidimos em abono da razão ou do coração, mas o nosso vacilar conduz-nos à edificação da nossa existência.

Sabemos que somos finitos, mas porque o tememos, procuramos sempre não vislumbrar esse horizonte, actuamos como se não houvesse amanhã…A esperança é sempre a candeia que alumia o nosso percurso, agarramo-nos à mítica fé de que ainda não chegou a nossa hora. Observamos as partidas dos outros, que do mesmo cais zarpam rumo ao nada, expressamos os nossos lamentos, mas lá no fundo não consentimos que um dia destes sejamos nós a levantar a âncora. Presunção de eternidade…

Nunca será tarde: existimos, somos, duvidamos, vivemos e finamo-nos renegando a morte. E os que vão ao seu encontro, deixaram de duvidar, perderam o receio, desistiram da existência, demitiram-se de si.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A leitura do rosto

Censura in Google imagens

Quando a cara não transmite qualquer sentimento…(síndrome de Moebius, doença rara)

(Benedict Carey, in THE NEW YORK TIMES)

Não há como comunicar pela expressividade do gesto: o rosto que fala, as mãos que dizem palavras acalenta os nossos interlocutores, valendo mais que mil palavras! Faz falta hoje em todo o lado: nos hospitais, nas escolas, nos tribunais...As instituições, porque são organizações assentes em regras estipuladas para o efeito, tomaram como prática a eficiência acima do humanismo. E o ser humano é carente de afectos, são eles que lhe dão alento quando está frágil, vulnerável, num leito moribundo, numa sala de aula a ser testado, num tribunal, a ser sentenciado.

“Deus ter-nos-ia posto água nas veias, em vez de sangue, se nos quisesse sempre imperturbáveis”

(Júlio Verne)

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A essência e a aparência

Salvador Dali

Não vivemos num mundo de verdades. A fogueira das vaidades alimenta a chama do fingimento, que, por sua vez nutre as mentes, em função da convencionado como socialmente correcto, ou, porque simplesmente não resistimos ao prazer do disfarce.

O baton encobre os lábios secos, o blush dá tonalidade à face, para ocultar umas rugas ainda susceptíveis de algum disfarce, o brilho dos tecidos ofusca o olhar dos que observam os que desfilam nos locais bem frequentados, a gravata empresta um ar respeitável ao homem que necessita ser aceite no mundo do trabalho, ou dos ambientes de glamour…

De uma maneira ou de outra todos inventamos. Fantasiamos…

A necessidade de encobrir, alterar, aparentar dá vida à segunda personagem que habita um pouco em todos nós. Se é um alter-ego, explicado pela ciência psicológica, que com maior ou menor intensidade se desenvolve connosco, ou, se é antes uma necessidade social que adquirimos, uns muito, outros pouco, através da educação, consoante o meio em que crescemos, pois será discutível, numa base académica, ou mesmo tema para uma investigação mais apurada.

Em algum momento da nossa existência metamorfoseamos… Efeito Pigmaleão!

A realidade é que o recurso ao disfarce é de facto tão ancestral quanto a humanidade, quando o homem das cavernas usava disfarces, obtido de artefactos, ou peles de animais, para rituais porventura de base mágica, apesar de poderem ter servido a sobrevivência, pela caça.

A simulação é quase um desafio, como um jogo a um só jogador de duas faces. E aplica-se em quase tudo, desde a maquilhagem, pela caracterização, à escrita, pelo recurso aos heterónimos e pseudónimos, à produção de imagem e som, na magia do cinema, personalizado pelos actores, ao mundo da Web, nas salas de chat, ou no second live.

Os subterfúgios têm sido o encanto que nos dá asas para voar, libertação do real, refúgio da dor, o mito cresce com os nossos sonhos, preenche-nos a mente, inebria o lado obscuro da dureza que a vida nos impõe, mas que a luz da fantasia nos empresta.

Quando já não existir outro “eu” em nós, simplesmente morremos.


sábado, 12 de junho de 2010

Ser ou não ser...


Há sempre um vazio nas nossas vidas, por mais que elas se encontrem preenchidas…

Sentimos por vezes um inconformismo que povoa o nosso ser, nos acabrunha e nos faz sentir uns miseráveis, sem razões para existir, que numa revolta interior dá asas ao manifesto agreste de rejeição, de uma imensa vontade de desistir…

Depois, lentamente, vamos recuperando da nossa sublevação, esquecendo o tal vazio, até novas recaídas, porque o quotidiano nos apela, num choro de criança, num telefonema parental, num pagamento em último dia, na resposta a um apelo, no caminho para o trabalho…

Erguemo - nos, retomamos o percurso, continuamos , labutando, como se não houvesse amanhã: volta a necessidade, o obrigatório, volta o estímulo, a vontade, o ânimo, até à reincidência de um outro desalento, que teima sempre em retornar…

Enquanto isso, vivemos!

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Caminho...

Imagens Picassa

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

“Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou.
Sei que não vou por aí!” (José Régio)


Prefiro viver a vida singela, em local recatado
do que olhar paredes douradas de clausura,

ainda que em salas ornamentadas

e envolta em vestes ricas de tortura,

porque são moda, caras, delicadas

viver num cenário mágico…

que se desfaz num ápice…


Quero ir por aqui!


Vim ao mundo,
para amar o dia a dia ,
E desenhar meu caminho na poeira desbravada!
Derrubar minhas barreiras,

Amar as ravinas, as planícies e as águas,

Sem limites nas palavras,

Sem preconceitos nas acções,

Simplesmente viver sem praxe,

Usar o meu jeito liberal,

Porque sou, não me fabrico.

Não me submeto, não me globalizo,

Apenas quero ser eu,

Ir por aqui até ao meu final…

EU

quinta-feira, 6 de maio de 2010

BB Brasil 2010



"Há aqueles que lutam um dia; e por isso são bons;

Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;

Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;

Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis."

Bertold Brecht

Lutar significa gostar da vida. Luta-se porque se acredita, mas também se luta por sobrevivência. Todos temos o instinto da luta. Lutamos quase sempre pelos que amamos, ou por nós mesmos, porque preservamos o nosso eu.

Quem desiste de lutar e se entrega somente ao acaso, vulgarmente traduzido por destino, ou deixou de crer, ou entrega o espírito á aventura, porque esmoreceu as emoções, ou ainda porque as do desafio do perigo eminente se sobrepõe, como uma compulsão á linguagem dos afectos.

O mundo constrói-se da luta diária dos seres humanos, enquanto estes vivem para um objectivo, como se não houvesse amanhã… Os limites surgem numa qualquer hora em que, porque se olha o espelho e se vê um espectro, ou porque se perde uma razão de existir. Aí, percebe-se finalmente que há um fim à vista. Deixa-se então de se sentir imprescindível.

Restam os memoriais da obra feita.




quarta-feira, 28 de abril de 2010

Salvador Dali


"Dizem que tudo o que buscamos, também nos busca e mesmo se ficarmos quietos, o
que buscamos nos encontrará. É algo que leva muito tempo esperando por nós.
Enquanto não chega, nada faças. Descansa. Verás o que acontece enquanto isso
.”

Clarissa Pinkola

Será que existe destino? Ou ele é produto do nosso percurso?

Por vezes acreditamos que a sorte ou o azar que nos marcam, resultam duma profecia anunciada que nasceu connosco, escrita nas coordenadas astrológicas que a posição dos corpos celestes nos determinou.

Mas a verdade é que as nossas decisões também nos prescrevem o futuro, condicionam-nos o trajecto da vida, invertem os nossos anseios, somente porque fomos nós que escolhemos o atalho, convictos que seríamos o mais apropriado para seguir caminho.

A natureza humana é impaciente, não se resigna simplesmente apenas o quotidiano,ela planeia, sonha, sofre por antecipação. Seria bem mais pacífica a existência, se cada um de nós, simplesmente se limitasse a existir.

E então veríamos o que aconteceria enquanto isso… Talvez o que buscamos nos encontrasse, talvez porque não teimássemos em procurar…

E o tempo passaria mais de vagar,a exigência diminuía e viveríamos um dia de cada vez!